Você está aqui: Home › Colunas › Artigos
Artigos

E-mail: jornal@oindependentetupa.com.br

02/02/2018
NOSTALGIA

Aos amigos do Tupaciguarinha e do 

Ginásio Tupaciguara dos anos 60.

 

Pessoal: hoje acordei com necessidade de compartilhar algumas lembranças da nossa época de infância e adolescência. Não sei se isto acontece somente comigo.  Na austeridade imposta pelas sete décadas vividas, tenho plena sensação de que naquela época o mundo era melhor, mais colorido e permeado de um sentido especial.  Talvez nos sentíssemos assim por não termos noção das agruras impostas pela vida adulta. Éramos crianças sonhadoras e cheias de paixão. O contexto político e social no qual vivíamos, os acontecimentos edificantes, os sonhos e as esperanças nos traziam encantos, que ora já não existem mais.

Na política, tudo levava a crer que o país caminhava para um futuro muito diferente do que nos resta hoje. Nosso emocional era enlevado pelos acontecimentos grandiosos com a ascensão de JK – o Nonô de Diamantina - ao poder. Um presidente empreendedor, disposto a conduzir o país ao panteão das grandes potências. Foram rasgadas estradas pelo sertão; construídas as hidrelétricas de Furnas; Três Marias; açudes para acudir o povo sofrido do Nordeste; implementação da indústria automobilística, aproveitando a infraestrutura criada por Vargas. A nova capital foi edificada em tempo recorde, quase impossível, valendo-se de um monumental esforço humano, político e econômico para atrair o desenvolvimento ao centro do país. Enfim, a promessa era de importantes transformações. 

No cenário internacional o Brasil se destacava em grande importância no esporte e na música. Foram duas copas conquistadas em seguida. O nosso futebol tornou-se referência mundial. O Santos e o Botafogo impunham respeito às maiores equipes da Europa, jogando na casa dos adversários.

As raquetadas certeiras de Maria Esther Bueno em Wimbledon garantiram-lhe um título inédito, quase impossível de ser repetido por outro atleta do nosso país. A seleção brasileira deu verdadeira aula de futebol na Suécia; a genialidade de Pelé encantava o mundo com suas jogadas além da lógica, e gols que pareciam pinturas; os dribles desconcertantes de Garrincha e as jogadas brilhantes de Amarildo conquistaram a copa do Chile.  Até Frank Sinatra curvou-se aos encantos da Bossa Nova, passando a incluí-la em seus concertos mundo afora. Todos aqueles eventos e vários outros, compunham um círculo virtuoso que alimentava o nosso orgulho de ser brasileiro!

E hoje, o que temos de relevante? A corrupção brasileira bate recordes históricos a nível mundial e nos coloca no centro da areia movediça. Realmente não temos do que nos orgulhar.

No mundo livre surgia Kennedy como sustentáculo da democracia, esbanjando carisma, bom senso e inteligência. Elvis Presley com seu topete único, olhos verdes e voz orquestral, apaixonava a mulherada e matava de inveja os homens. Marilyn Monroe escandalizava a igreja e o mundo feminino. Ao mesmo tempo, levava os homens às mais excêntricas formas de “homenagens”. Lennon e McCartney despontavam na música para provar que a arte é eterna...

Voltando ao nosso Ginásio Tupaciguara, minhas lembranças daquela época são pródigas em sensações que me alimentam a alma. O descompromisso, as algazarras entre os colegas, todo mundo tinha um apelido desmerecedor, mas não considerado como “bulliyng”, mesmo porque esta expressão não existia, e se existisse, não se aplicava. As aulas de natação do sr. Luiz Pizotti na Praça de Esportes congelavam até a espinha no inverno. Tupaciguara era muito frio em junho e julho. Os conselhos dados aos jovens pelo querido Padre Artur Vitti nas missas das oito aos domingos, rezadas em latim. A postura conservadora do padre Valdir Stolf (nem sei se é assim que se escreve), tentando mexer com os brios daquela turma pouco comprometida com o estudo, aplicando castigos e multas por aulas matadas. O sarcasmo do Prof. Mário Wood colocando apelidos esdrúxulos em todos. As brigas combinadas para “depois da aula”. A sapiência do Prof. Rui de Almeida nas aulas de história; o temperamento tempestuoso do dr. Aldon; o humor cáustico do Prof. Paulo Batista; a intolerância do Prof. Brasiliano (tio Brasil) nas aulas de canto orfeônico; o time de futebol de campo do Ginásio. Participar da fanfarra então, era uma honra para qualquer aluno! As datas cívicas eram todas respeitadas e comemoradas com desfiles. Lembro-me da comemoração de um 7 de setembro – acredito ter sido no ano do cinquentenário - em que o Sereia (Leonardo Alvarenga Prado) foi escolhido para fazer o papel de Dom Pedro I. Lá vem o Sereia todo garboso, vestido a caráter, ostentando as enormes costeletas do personagem, montado em um belo alazão à frente da fanfarra, com uma espada em punho, aguardando a ordem do Tio Brasil para soltar o “Grito da Independência”. Foi uma festa!

Não sei se alguém ainda se lembra, mas na final da Copa do Mundo de 1.962, tínhamos uma aula de educação física justamente na hora da partida. O prof. Paulo Batista não abriu mão do horário da maldita aula. Brasil e Tchecoslováquia no maior embate em campo no Estádio Nacional de Santiago, e nós todos transpirando embaixo de um sol escaldante no campo cascalhado do ginásio. O rádio a válvula era o único meio de comunicação, mas nem um desses existia ao alcance do nosso ouvido durante aquela sofrida aula. Faltando uns 15 minutos para encerrar o jogo fomos dispensados para “torcer pelo Brasil”, mas àquela altura o placar já era de 3 a 1 a favor da nossa seleção. Algo impensável hoje! 

Por falar em Paulo Batista, foi graças a ele que consegui estudar no Ginásio Tupaciguara. Terminei o primário no Arthur Bernardes e não podia pagar o curso ginasial. Fui falar com o Padre Valdir sobre uma possível bolsa, mas não tive sucesso. No entanto o Prof. Paulo ouviu parte da conversa com o padre e pediu-me que falasse com ele próprio em particular sobre tal assunto. No dia marcado, ele apresentou-me um livro – Programa de Admissão ao Ginásio – e disse: sou encarregado de aplicar a prova de Admissão para alunos provenientes de outras escolas. Fique com este livro e estude-o. Se conseguir aprovação, eu lhe garanto uma bolsa integral, já falei com o padre. E assim foi feito; além da bolsa de estudo fui presenteado com todos os livros do primeiro ano. Como posso esquecer pessoas e passagens como esta? Não tenho todos os motivos para amar aquela época?

O cinema foi uma grande inspiração para toda aquela geração, não só dos adolescentes. Hoje não acontece mais isto. Ir ao cinema naquela época significava muito mais que simplesmente assistir a um filme. As pessoas, entusiasmadas, se produziam para ir ao cinema, como forma de uma interação social. O lobby de entrada do cine Vitória onde ficava a bombonnière costumava ser ponto de encontro para descontraídas conversas, antes do início da sessão. Além do mais, a expectativa era sempre de um grande espetáculo. Aos adolescentes, a sala de cinema servia de porto seguro para os primeiros encontros, onde o ambiente escuro favorecia os namoradinhos envergonhados. 

Os filmes eram comentados a largos gestos nos bares, esquinas, e em todos os lugares, inclusive na sala de aula. Os atores e atrizes mais famosos eram ídolos incontestáveis. Mulheres deslumbrantes como Rita Hayworth; Gina Lollobrigida; Brigitte Bardot; Ava Gardner; Kim Novak e a pureza angelical de Audrey Hepburn (a eterna Bonequinha de Luxo), e mais tantas outras divas, ocupavam o imaginário do público masculino, sem deixar espaço para mais nada!

John Wayne impunha a lei aos vilões pelas coronhadas impiedosas de sua Winchester 73. Todos queriam ter a coragem, a valentia e a frieza daquele intrépido Cowboy. Charlton Heston - o Moisés - foi também o idolatrado Ben-Hur – que, com sua quadriga puxada por maravilhosos cavalos brancos, venceu o mal de Messala, e a grande corrida na arena romana. Kirk Douglas – o legendário Ulysses, resistiu ao canto sedutor da sereia e conquistou todas as plateias. Mais tarde ainda presenteou o público com o seu irretocável Spartacus. Yul Brynner – o implacável faraó Ramses II - quando aparecia na tela com sua majestosa careca, arrancava suspiros de toda a plateia feminina. James Dean – o garoto rebelde e charmoso – embora tendo vivido pouco, deixou sua marca indelével em três filmes. Rock Hudson, Alain Delon, Marcello Mastroianni e Tony Curtis– os bonitões – eram sonho de consumo da mulherada. Isto sem falar de uma imensa constelação que girava em torno dos mais famosos.

Hoje, depois de tantas transformações que o mundo sofreu e a proliferação de vários formatos de mídia, o cinema – na minha opinião – caiu na irrelevância. Prevalece a violência gratuita, os monumentais efeitos especiais, e a ausência quase total de conteúdo. O cinema hoje faz parte de um “pacote” de entretenimentos à disposição do público que frequenta Shoppings, sem charme e glamour.

É... infelizmente o tempo passou, arrastando com ele a nossa juventude, nossos sonhos de adolescentes e aquela época romântica!

Abraço!


Faustino P Souza

Veja mais em "Artigos" [veja todos]

Última Edição

Coluna Social

Confira aqui as notícias da sociedade e as fotos de quem é notícia de Tupaciguara e região.

Fórum do Leitor

Entre e deixe o seu comentario em nosso livro de visitas!